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Detroit: Become Human – Um novo padrão de narrativas interativas?

Detroit: Become Human – Um novo padrão de narrativas interativas?

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Maio do ano passado marcou o lançamento do mais recente jogo da Quantic Dream, Detroit: Become Human. Os jogos da Quantic Dream têm um forte foco na história e trazem um ar cinematográfico. Isso torna-os mais próximos de um filme interativo do que um game no seu sentido tradicional: o objetivo é vivenciar a história se transformando com suas escolhas.

Isso é mais verdade ainda em Detroit: Become Human. Dessa vez foi incluído um nível de dificuldade casual com uma quantidade reduzida de QTEs. QTEs é uma abreviação de “quick time events”, que são os ícones referentes a botões que precisam ser acionados em rápida sequência. Caso uma certa quantidade de botões seja pressionada de forma errada, o personagem falha a ação e, em alguns casos, pode resultar no fim do jogo.

Captura de tela do jogo Detroit: Become Human demonstrando um evento em que o jogador deve escolher capturar um divergente ou salvar seu parceiro policial, Hank
Exemplo de QTE de uma decisão que influencia a narrativa

Nos títulos passados da Quantic Dream, as sequências de QTEs eram mais longas e difíceis, com uma margem de erro menor. Em Detroit, você precisa se esforçar para falhar a ponto de resultar na morte de um dos personagens. Só vale lembrar que algumas escolhas sempre trazem consequências negativas, independentemente do nível de dificuldade. Um amigo meu escolheu a opção “sacrifício” num dos momentos decisivos, mas ficou irritado quando percebeu que isso resultou na morte de um dos personagens principais. Não tive como me segurar e zoei com ele por causa disso. 😀

 

As escolhas têm consequências

Isso nos leva a outro ponto bastante interessante sobre Detroit: Become Human. Até então, jogos com foco no desenrolar de uma história tinham uma estrutura bem rija. Por mais que o jogo desse a ilusão de escolha, os reflexos dessa escolha acabavam sendo sutis.

Um bom exemplo é o game The Walking Dead lançado pela Telltale, que fez um sucesso enorme alguns anos atrás. Após jogar uma segunda vez, porém, é forte a impressão de que, apesar das escolhas que o jogador faz, a história se desenvolve sempre da mesma forma. Em muitos casos, as únicas mudanças são eventuais linhas de diálogo. Apenas no último capítulo você vê algumas mudanças marcantes. Mas ainda assim a história se desenvolve da mesma maneira em qualquer cenário.

Imagem promocional do jogo da Telltale The Walking Dead Season 1 com o personagem principal Lee segurando um machado e protegendo a menina Clementine de uma hora de zumbis
Imagem promocional da primeira temporada do jogo The Walking Dead da Telltale

 

Um esforço maior do que aparenta

Não culpo a Telltale por criar The Walking Dead da forma que fizeram. Esse tipo de game requer um esforço enorme para contar uma história coerente. Então é natural que o desenvolvedor queira que os jogadores tenham uma experiência o mais completa possível. Mas em um tipo de jogo focado na importância da escolha do jogador e sua influência na trama, esse pensamento limita as possibilidades porque a história sempre terá que se desenrolar de uma forma específica.

Pegando o exemplo do Walking Dead novamente, se você comparar as suas escolhas com as de um amigo no capítulo final, por mais que tenham feito escolhas diferentes, os eventos que definem a história são os mesmos. Não vou revelar nenhum spoiler aqui, mas não importa o que você faça, o destino dos personagens nunca muda. A forma como um personagem morre pode mudar, mas não o fato de que o personagem vai morrer.

 

Definindo novos padrões

Detroit: Become Human quebra essa rotina ao permitir que os personagens morram antes de chegar ao final da história. Inclusive os personagens principais. Portanto, dependendo das escolhas feitas, você pode acabar não vendo uma grande parte do enredo. Isso não é novidade porque outro jogo da Quantic Dream, Heavy Rain, já fez algo parecido.

No que Detroit se diferencia, porém, é a forma como a história se ramifica. A quantidade de variações nas cenas é incrível. Eu já assisti a diversas transmissões desse jogo e vídeos no YouTube, e até hoje ainda vejo cenas que nunca tinha visto antes.

O game ainda vai um passo além e barra os jogadores de verem tudo o que o jogo tem a oferecer num único playthrough (palavra que vem do inglês e significa o ato de jogar um game do começo ao fim). Dependendo das suas escolhas, uma mesma cena pode se desenvolver de uma forma completamente diferente.

Captura de tela do jogo Detroit: Become Human mostrando o fluxograma com indicadores de todos os possíveis eventos em um determinado capítulo
Exemplo de fluxograma ao final de um capítulo mostrando todas as situações com as quais o jogador pode se deparar

E mesmo que você não jogue a história completa uma segunda vez, ao conversar com outro jogador haverá diferenças bem mais significativas para comparar. Isso torna a experiência mais enriquecedora porque a história que você vivenciou é de fato significativamente diferente. É a sua história, moldada com as suas escolhas.

 

Um mundo rico em detalhes, mas…

Que a qualidade visual do game é incrível, não há dúvida. É impressionante, mesmo no meu modelo padrão do PS4. Apesar do realismo gráfico, uma das queixas mais comuns é que alguns personagens agem de uma forma bastante cartunizada. Não há muita sutileza, e a história tende a ser bem direta em certos pontos. Imagine uma novela com reviravoltas que só existem para pegar a audiência de surpresa e não fazem muito sentido quando se coloca tudo em contexto.

No caso de um game com a complexidade que Become Human tem, eu não considero isso como um ponto negativo. Contradições ou outros problemas de continuidade não são tão sérios, visto que o objetivo é ver que tipo de consequências as suas escolhas podem ter. Isso vem à custa de compartilhar uma história com personagens e significado profundos e bem trabalhados. Afinal, para uma mesma escolha poder ter resultados completamente diferentes, às vezes é preciso jogar a lógica pela janela.

Cena do final do primeiro capítulo do jogo da Quantic Dream Detroit: Become Human com o androide detetive Connor deixando a cena do crime vitorioso
Um dos personagens principais, o detetive androide Connor, deixando uma cena de crime vitorioso

Esse aspecto é bastante disputado entre os jogadores do game. Nos títulos anteriores, em especial Beyond: Two Souls, creio que a inconsistência da trama é uma reclamação plausível porque a estrutura do game é rija. Em Beyond, o foco é na história e gameplay. Aí a experiência como um todo é afetada por uma sequência de eventos sem nexo e propósito.

Minha sugestão? Se você sempre quis jogar um game em que a história muda drasticamente de acordo com as escolhas que você faz, Detroit é o melhor que esse gênero tem a oferecer. Mas se você prefere uma trama bem estruturada e contada de uma forma coerente com personagens consistentes, talvez seja melhor procurar um outro tipo de jogo. 😉

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Vagner Albino Nascido no Rio Grande do Sul, atualmente mora no Canadá e está sempre procurando pelas últimas novidades no mundo dos games. Seus jogos favoritos são RPG, aventura, música e indies, e ele mesmo já desenvolveu diversos pequenos jogos e interações para a plataforma Twitch, onde esporadicamente faz algumas transmissões.

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