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Steamworld Quest, um RPG com cartas

Steamworld Quest, um RPG com cartas

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Steamworld Quest é um lançamento para o Nintendo Switch que traz uma inovação interessante para games de RPG. Ao invés dos tradicionais comandos, todas as ações realizadas em batalhas são executadas através de cartas.

 

Steamworld Quest: mix de RPG e cartas?

Tudo que você faz em uma batalha depende das cartas que você recebe. Ataques normais, magia e até mesmo restaurativos estão todos incluídos em um único baralho.

Os baralhos são formados por coleções de cartas específicas para cada personagem. Dessas coleções, você é obrigado a escolher exatamente 8 cartas por personagem ativo nas batalhas. Portanto o tamanho do seu baralho vai depender de quantos personagens você usar. Ao final do jogo você terá um total de 5 personagens para escolher. Desses 5, você pode escolher no máximo 3 para participar nas batalhas.

Como você tem sempre 6 cartas na mão durante as batalhas, um menor número de personagens ativos significa maiores chances de receber uma carta ideal. Porém ao mesmo tempo o seu grupo se torna mais frágil com menos robôs para dividir os danos causados pelo inimigo.

 

Aumentando a pressão

Captura de tela do game com tutorial explicando o sistema de pontos Steam Pressure
Tutorial explicando SP, Steam Pressure

As cartas são divididas em dois tipos: habilidades e básicas. Uma carta básica não tem custo para ser usada. Habilidades, porém, fazem uso de pontos chamados de Steam Pressure (pressão de vapor), ou SP. Cada carta básica que você usa te dá 1 SP. No total você pode acumular até 10 SP.

Habilidades afetam inimigos e aliados diretamente, enquanto que ações básicas são ataques normais ou causam efeitos indiretos, como por exemplo permitir que ataques de outro personagem paralisem o inimigo.

Esse mecanismo torna cada batalha única e empolgante. Não basta simplesmente escolher ataques, você precisa decidir em qual ordem suas ações serão mais eficazes. Cada carta tem uma importância única, visto que ações básicas podem fazer suas habilidades ainda mais poderosas com upgrades.

 

Diversidade na adaptabilidade

O que torna Steamworld Quest único é o fato que você nunca sabe ao certo quais cartas você terá na mão. Cada turno é um jogo de adaptabilidade à situação atual. Há uma grande satisfação ao encontrar uma estratégia que te faz superar o desafio em questão de forma espetacular.

Captura de tela de uma batalha no jogo Steamworld Quest. O jogador tem uma mão com 6 cartas que dita as ações que os personagens podem fazer.
Tela de batalha com mão de 6 cartas na parte inferior. Todas as suas ações são apresentadas através de cartas!

As batalhas são o ponto forte do game. Infelizmente é o aspecto de gameplay mais saliente. Explorar os mapas é bastante simples, por mais que cada um tenha normalmente uma área secreta para encontrar. Se você desconsiderar a construção de um baralho, batalhas são tudo que o game tem a oferecer. Você vai enfrentar inimigo após inimigo do começo ao fim do jogo.

Isso é ruim? Não necessariamente. As batalhas são interessantes e seus mecanismos foram aperfeiçoados muito bem. Enfrentar inimigos nunca se torna algo maçante.

Mas, por ser repetitivo, jogar por longos períodos de tempo pode acabar se tornando cansativo. Eu me cansava geralmente depois de duas horas contínuas. Aí trocava de jogo por algumas horas, o que me ajudava a pensar em novas estratégias.

 

Prós e contras

Imagem conceitual do personagem Armilly do game Steamworld Quest, uma robô guerreira
A guerreira em questão: Armilly

Os gráficos são o ponto forte. Os games da série Steamworld sempre tiveram gráficos bem coloridos e vibrantes. Música também. Em questão de estética, o pessoal da Image & Form sabe o que faz muito bem.

A história e os personagens são os aspectos que considero medianos. A história, por mais que seja funcional, não se destaca. Ela é bem simples e, em muitos dos momentos, parece não ter peso. O mundo parece vazio, e acaba se tornando apenas um cenário para as batalhas.

Os personagens, assim como a história, não apresentam muita profundidade. Têm personalidades bem definidas, mas são clichês, e portanto não trazem nada de único. O guerreiro é do sexo feminino, mas o clichê ainda é o mesmo: ela admira um herói antigo e quer ser uma heroína também. Ao longo da história ela percebe que seu herói é falso, e durante sua jornada ela mesmo acaba se tornando um herói maior do que aquele que ela idolatrava.

 

Equilíbrio

Clichês não são algo ruim. Em games com foco no gameplay, clichês podem ajudam a definir personagens (e o mundo) de uma forma rápida e intuitiva. Creio que Steamworld Quest se encaixe neste quesito. Um exemplo que se destaca é que os personagens estão sempre falando em comida. Não faz muito sentido sentirem fome por comidas normais como pães e frutas, afinal são robôs. A história nunca trata desses assuntos. Eles sentem fome. Eles gostam de comida. Nós como jogadores temos empatia com esses sentimentos. Não faz sentido, mas ao mesmo tempo humaniza os personagens.

Portanto história e personagens brandos não são algo ruim neste game. Eles estão presentes apenas para preencher o vazio. Apesar de clichês, são feitos de forma competente.

 

Uma proposta dividida

O game propõe uma mecânica de cartas em um jogo de RPG. Em RPGs os jogadores têm liberdade de usar diversos personagens distintos e fazer uso de variados recursos que podem ser adaptados ao seu gosto particular. Uma vez assentado o seu estilo, você tende a usar as mesmas técnicas durante todo o jogo. Você talvez tenha que alterar a sua abordagem em algumas batalhas que tenham um requerimento específico. Mas isso normalmente se resume a algum acessório ou equipamento que te auxilia em tais situações.

Steamworld Quest te dá esse tipo de liberdade desde o começo. Você já começa com um baralho bom e dois personagens. Isso te ajuda a entender como o jogo funciona. Logo você já recebe um terceiro personagem. O grupo formado é sólido e supre os papéis mais comuns em RPG: guerreiro, mago e suporte.

Apesar do recebimento constante de novas cartas, e da introdução de dois novos personagens no desenrolar da história, os jogadores normalmente não sentem a necessidade de alterar o time ou sua forma de jogar. Mesmo que os novos personagens sejam usados no lugar dos iniciais, eles acabam recebendo funções similares.

Captura de tela do jogo Steamworld Quest com o grupo completo de personagens em uma arena de batalhas
O grupo completo de personagens de Steamworld Quest

 

Surpresa! Adapte-se, ou game over!

Próximo do fim do game, a dificuldade parece aumentar subitamente. É como se os inimigos passassem a causar o dobro do dano, enquanto que seus status continuam os mesmos. A verdade, porém, é que a dificuldade continua a mesma. A forma como o jogo se apresenta é que mudou. Até os últimos capítulos, o jogo é bastante tolerante às estratégias dos jogadores. Você pode até não ter estratégia nenhuma e só seguir atacando e recuperando energia que vai conseguir vencer a maioria dos encontros sem muitos problemas.

Nos últimos capítulos, porém, o jogo espera que você tenha se familiarizado com suas técnicas, especialmente de sinergia entre as cartas e uso de buffs e debuffs. Você tem que usar uma combinação inteligente de Chain Attacks (o uso de 3 cartas de um único personagem em um turno que gera uma quarta carta bônus), acessórios, equipamentos e buffs especiais baseados em ações de certos personagens.

 

Uma frustração sem má intenção

Isso tem frustrado muitos jogadores que tenho assistido no Twitch. Inclusive eu. Há uma ideia de “estratégia predominante” em videogames. Assim que um jogador encontra uma forma de jogar que permite completar a maioria dos objetivos em um game de uma forma simples, ele vai continuar fazendo isso até o final do jogo.

Muitas vezes isso é um descuido dos criadores que falharam ao perceber diferentes formas de abordar os desafios propostos pelo game. No caso de Steamworld Quest, o game apenas falha em comunicar o que espera de você como jogador. Essa expectativa é que você adapte o seu time e descubra formas mais eficazes de derrotar seus oponentes desde o começo, mas torna isso essencial apenas no fim.

O jogador, despreparado por estar usando as mesmas estratégias – simples, porém eficazes – desde o começo do jogo, é pego de surpresa. Parece que o game subitamente é difícil demais sem um motivo concreto. Mas na verdade ele apenas espera que você lide com os desafios de uma forma bem específica. E isso traz a impressão de que o game tira a liberdade de abordá-lo de sua forma única e força uma abordagem específica.

Captura de tela da construção de baralho do jogo Steamworld Quest
Tela de construção de baralho

 

Um equívoco, ou de propósito?

Na minha opinião, isso foi um lapso. Os desenvolvedores, cientes dos mecanismos que fazem o jogo funcionar, criaram uma dificuldade adaptada à percepção deles. Eles já sabiam o que esperar, então em seus testes eles jogavam já com isso em mente, adaptando suas estratégias de acordo.

Apesar da frustração de subitamente ser decimado pelo jogo porque sua forma de jogar já não basta, isso não é algo ruim. É necessário um aumento de dificuldade à medida que progredimos em um game, afinal nos acostumamos com suas técnicas, e portanto temos capacidade de enfrentar problemas e situações mais complexas.

É frustrante que a exigência se torne bastante severa apenas no final do jogo. Creio que poderia ter um equilíbrio maior nesse requerimento de maestria das técnicas do jogo. Mas mesmo ao nos depararmos com essa proverbial parede, ainda acho o desafio interessante, especialmente porque o game foi construído com um sistema de batalha muito competente. Ainda vale a pena deixar a possível frustração de lado e tentar adaptar a sua forma de jogar às novas exigências do game.

 

Um problema de logística

Isso nos leva ao problema maior. Em um RPG, é importante experimentar novas estratégias e combinações. Você tem diferentes personagens, poderes e habilidades. E cada jogador pode encontrar um estilo que faça mais sentido e funcione melhor para ele.

No caso de Steamworld Quest, as cartas que você recebe sugerem uma forma de usar os personagens em questão. Mas isso não é ideal, visto que o jogador estaria sendo forçado a jogar seu game de certa forma. Então o jogo nunca te obriga a usar essas novas cartas (e portanto as técnicas envolvidas nas mesmas).

Em se tratando de opções, a lojinha itinerante oferece uma quantidade ainda maior. As cartas são únicas, e são mais interessantes do que as que você encontra durante o jogo porque você pode escolher aquelas que se encaixem melhor no seu estilo. Porém elas são muito caras. E você não precisa apenas de ouro, mas também certos raros itens para criar tais cartas. Se você tem interesse em uma carta, você precisa pensar muito bem na sua estratégia antes de fazer uma compra.

Captura de tela dos personagens do jogo Steamworld Quest em frente à loja itinerante
Personagens em frente à lojinha itinerante

 

Sinergia?

Pensar em estratégias desta forma, sem poder experimentar na prática, é frustrante. Ainda mais que as descrições das cartas às vezes não são muito claras. E isso que em Steamworld Quest eles se esforçaram para explicar bem o que cada carta faz. Ainda assim, alguns detalhes passam desapercebidos, e você acaba notando que o comportamento não é bem aquilo que esperava ao usar uma carta pela primeira vez.

Muitas das cartas funcionam em conjunto com outras. Se você usar uma carta de um tipo antes de outra, um certo efeito acontece. Mas se a carta tiver um outro efeito, então o resultado é outro. Há diversas variáveis que aumentam a complexidade da sinergia entre as cartas. Que efeitos interessantes você pode desencadear usando certas cartas em sequência nos turnos subsequentes?

 

Um problema de savegames

Tudo bem que o game não te permita comprar todas as cartas. Eu pessoalmente acho que isso tornaria o desafio fútil. Mas quando você não tem a opção de carregar um save anterior para tentar uma nova estratégia, um grande problema emerge.

Você tem apenas 3 slots para saves. Só que cada save é único. Você não tem a opção de salvar o mesmo game em outro slot. Na verdade você nem tem a opção de salvar. Quase qualquer ação que você faz salva o jogo automaticamente. Entre essas ações está troca de telas, compra de cartas e finais de batalhas.

Portanto comprar cartas para experimentar e depois recuperar um save antigo caso as cartas não funcionem na sua estratégia não é possível. Assim que você comprar a carta, o game salva, e você não tem como devolver. E como você só tem um único slot, isso tira a autonomia do jogador. Este é um jogo de cartas em que você não tem a liberdade para experimentar.

 

Uma complicação inesperada

Isso implica em uma complicação desnecessária para o jogador. Você tem que fazer um esforço para analisar cartas, colocar elas em um contexto e imaginar como vão interagir umas com as outras. Você quase que precisa de papel e caneta, visto que não há uma interface prática para analisar e comparar os detalhes de cada carta.

Essa com certeza foi a parte mais maçante do jogo para mim. Eu acho legal experimentar estratégias e encontrar uma que se adapte ao meu estilo. Mas nesse caso a maior parte do tempo eu passei indo de um menu ao outro para comparar dados, ver o que funciona e tentar imaginar uma situação ideal na qual as cartas e acessórios funcionassem em harmonia.

Tela de upgrade de cartas
Tela de upgrade de cartas com informações resumidas

 

Apesar de tudo, Steamworld Quest vale a pena!

Steamworld Quest é um jogo fenomenal. Só na criatividade de ter um jogo de RPG que funcione com um baralho de cartas vale o investimento. Aliado a isso está uma trilha sonora excelente, e belos gráficos criados à mão, vibrantes e coloridos.

Para aqueles que preferem uma experiência casual, há uma dificuldade fácil. E também há uma dificuldade difícil para aqueles que realmente querem se aprofundar nas estratégias e sinergias das cartas. Steamworld Quest é acessível para diferentes tipos de gamers, e isso por si só é admirável. E você pode inclusive mudar a dificuldade durante o jogo, o que torna as minhas observações irrelevantes, embora eu não creio que isso seja uma solução viável para a forma como o game se apresenta. Afinal, a dificuldade normal é ideal durante a maior parte do jogo.

Em suma, a qualidade é inquestionável. Um grande esforço foi colocado no game, e o resultado é uma experiência recompensadora, mesmo com prováveis frustrações. Por enquanto o game está disponível apenas no Nintendo Switch, mas outras plataformas estão planejadas para o futuro. Se você tem um Switch e gosta de JRPGs, recomendo sem hesitações! Mas se você tem interesse em games inovadores e criativos, esse é um título que vale a pena experimentar também. 😉

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Vagner Albino Nascido no Rio Grande do Sul, atualmente mora no Canadá e está sempre procurando pelas últimas novidades no mundo dos games. Seus jogos favoritos são RPG, aventura, música e indies, e ele mesmo já desenvolveu diversos pequenos jogos e interações para a plataforma Twitch, onde esporadicamente faz algumas transmissões.

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